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segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

A minha Viagem

Voltas e voltas na cama. …Não conseguia dormir, o pensamento voava e ia ao encontro de todas aquelas pessoas de quem me tinha despedido à mais de três meses. Ver de perto este reencontro fazia-me sonhar mas ao mesmo tempo bloqueava-me o pensamento, dada a ansiedade que tinha.
Tanta coisa se passou neste tempo. …Sempre tive um sonho, lutei por ele, debati-me muito e quando pensei que estava tão longe apareceu-me este caminho, quase como uma luz. Uma pessoa as vezes esquece-se que para lutar, para conseguir qualquer coisa na vida, existem várias alternativas. Eu muito tempo tive a minha visão limitada, não que alguém me a tivesse limitado, eu própria o fiz. Portugal era simplesmente o único país que eu via para estudar. Hoje tenho uma ideia tão antagónica a essa.
Mas …quando surgiu a oportunidade, quando por acaso, este caminho se cruzou à minha frente por, e simplesmente, mero acaso eu não hesitei um segundo. Foi pegar na minha mala e rumar a 8 mil quilómetros de casa sem conhecer nem a língua nem as outras duas raparigas que foram dias antes de mim. 
Passei por momentos muito bons mas também houveram muitas alturas difíceis para mim. Se de um dia para o outro alguma coisa começou a fazer sentido, outras, e a maior parte, perderam-no completamente.
Nunca me imaginei três meses sem a minha família, sem a minha casa, sem aquelas coisas que considerava minhas e adquiridas, sem aqueles costumes enraizados.
Os fins-de-semana, por exemplo, não tinham sentido. Vazios, sem nada para fazer. Já não havia o meu pequeno-almoço depois da missa com a minha família, já não havia o jornal do meu pai, já não havia a escolha do restaurante quer para o almoço quer para o jantar, já não havia a minha avó, que adora que esteja com ela, já não havia o meu sofá em que comodamente, com o meu famoso cobertor, assistia a um filme.
Foi aí que senti mais falta da minha família, da minha casa. Com o tempo fui adquirindo outros costumes e conhecendo pessoas que se tornaram amigas e que entraram de uma maneira significativa na minha e nas nossas vidas. Já havia aquelas pessoas que em algum momento podíamos contar e que aceleraram a nossa integração neste país ainda desconhecido.
Receber visitas em casa foi fantástico. Fazer jantares tardíssimos o melhor do mundo e vê-los fazer o jantar para nós ainda melhor. Precisava de criar aqui o meu mundo e eles, sem dúvida, ajudaram muito. Hoje sei que estou dividida entre Portugal e este país que me recebeu. Criei aqui um pequeno mundo em que já me sinto segura e que me faz sentir uma pessoa um bocadinho feliz e realizada apesar de ser um pesadelo. Ver de perto esta viajem de férias já me dividia. Se por um lado desejo ansiosamente regressar as minhas origens, abraçar com toda a minha força a minha família e recuperar aquele mundo que deixei pendente, por outro lado sinto que deixo algo cá….
Já não consegui dar mais voltas. Levantei-me. Tentei relaxar, comi qualquer coisa e liguei o meu computador. Agora já tenho Internet. Dois dias antes da data da viajem foi quando me instalaram a Internet. Tanto me fez desesperar, tanto me fez bater o pé. Já me parecia uma ilusão ter Internet em casa e não ter que correr para o ciber condicionada por horas e por tempo. Apetecia-me falar com alguém mas não encontrei ninguém, então naveguei por sites e sites e tentei actualizar-me em relação aos assuntos de Portugal e do mundo. Jornais nunca comprei e a televisão jamais liguei. Não gosto da programação. Assim, as vezes, ando meia isolada do mundo.
Ás 6 da manhã o cansaço chegou…, então deitei-me. Dormi até as 8 horas, ou seja, duas horas. Voltei-me a conectar, queria desesperadamente falar com a minha família. Mandei uma mensagem à minha irmã e conectou-se tanto ela como o meu pai. Que bom que era feriado, estavam todos em casa. Queria que sentissem a minha alegria ao deparar-me com um reencontro tão próximo. Queria dizer-lhes que os adorava e que lhe ia dar um abraço enorme nas próximas horas.
Quando foram almoçar aproveitei para tomar banho. Tiro a roupa, meto-me na banheira e… não há água. Raios! O meu cabelo esta pior que nunca e eu estou toda suada. Não me lembrei que a partir das 9 horas não há água. E agora? Bem, aproveitei para tomar o pequeno almoço.
Entretanto fiz a mala, continua vazia ou quase vazia.
Falo com a minha avó que desconfia que vou mais cedo, apesar de no início o negar acabo-o por confirmar. Continuo a falar tanto com ela como com o meu pai e a minhas irmãs.
Continuo sem água e é uma da tarde. Só à 1.30 que ela volta. Tomo banho rapidamente e aqueço a massa do jantar do dia anterior.
Despeço-me da minha família com um até já. Acabei de preparar tudo e rumo aeroporto. Entrego as malas, despeço-me deles.
Entro e pela primeira vez na vida me fazem tirar as sapatilhas.
Sento na zona de embarque e quase me caio de sono. Falta 1 hora e meia para o voo, são apenas 4:30. Chego a dormir…. Sinto qualquer coisa estranha, são 5 horas e vejo isto muito parado. São 5.15, …5.30… e ninguém nos chama. Fogo! Que se passa? 5:45 e nada, …até que alguém vem dizer que o voo se vai atrasar meia hora por causa de uma avaria mecânica. Penso nas horas que vou ter que esperar, na possível noite que poderei passar no aeroporto e não quero acreditar. 6:15 e nada. …6:30 “o vôo foi cancelado” Não!!! Não posso acreditar! Não pode ser!… Não consigo ouvir mais nada, …já tenho os olhos húmidos e o pensamento bloqueado. Não acredito!!!
Quando a pessoa acaba de falar e só passado alguns segundos, …perguntei à pessoa à minha frente o que passava “ Vamos ficar num hotel”. Como?!? Meu Deus! Não tenho telemóvel de cá, não trouxe dinheiro e só sei o número de casa. Pego no telemóvel de português e telefono rezando para que alguém esteja em casa. Sim, ela atende a chamada. A seguir telefono ao meu pai que não dá sinal, ligo para a minha avó…. Porque tinha isto que acontecer com a viagem com que depositei mais importância?

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